sexta-feira

Sinopse

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Sinopse

Pertencente a fidalguia portuguesa, Rodolfo Almeida de Alcântara Vaz e Braga, não tinha muitos limites. Nascido em 1506, nos tempos de D. Manoel I, o Venturoso, já em sua adolescência mostrou seu gosto pela vida desregrada, era um amante da boêmia. Seu segundo amor eram os navios, e foi através de um deles, que resolveu seguir por rumos obscuros, que provocaram a ele grande sofrimento. Ajudado por uma tribo indígena, conheceu seu grande amigo e mentor, padre Pedro, um franzino jesuíta que muito o ajudaria daquele momento em diante. Sendo vitimado por suas próprias escolhas, muito teve que caminhar, aprendendo a cada passo, lições valiosas que o fizeram mudar sua faixa vibratória. Desses tempos remotos, aos tempos do velho Bento, o escravo da fazenda Cruzeiro do Sul, muitos anos se passaram, mas ele entendeu, de seu jeito, os motivos que o conduziram até lá. Um história forte, mas com uma linda e revigorante mensagem de vitória e superação, é reservada ao leitor dessa fascinante obra.



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Aqui nessa página, você encontrará o primeiro capítulo inteiro do livro, para degustação!

BOA LEITURA!

Sobre o autor

João Fernando nasceu na cidade de São Paulo no ano de 1981. Cresceu em um lar pobre e desestruturado, jamais teve contato com seu pai, cuja única herança que lhe deixou, foi o próprio nome. Criado junto de sua irmã por uma mãe batalhadora, demonstrou desde cedo seu gosto pela escrita. Passava horas agradáveis junto de seus inseparáveis amigos, um pedaço de papel e uma caneta. Com oito anos de idade, resolveu que deveria levar suas poesias para sua professora avaliar. Conta que foi um misto de frustração e êxtase, quando ela perguntou-lhe, com cara de interrogação, de onde ele havia copiado tais poesias. “Umbandista de coração”, considera-se também Universalista, pois acredita que todas as religiões possuem “um pedacinho maravilhoso de Deus”, assim como leva consigo a certeza de que, em um futuro breve, todos os seres humanos perceberão que “a religião é do homem e a fé é divina”.

Um homem de fortes opiniões, luta contra o preconceito e a discriminação, diz inclusive que essa luta também é interna. Comenta que já viveu o luxo e o lixo da vida, mas que não conseguiu se estabelecer em nenhuma das duas posições. Grande admirador e apreciador da obra de Raul Seixas, afirma que busca ser sempre uma “Metamorfose Ambulante”. Eclético, gosta de ouvir todo tipo de música, ler todo tipo de livro e viajar para todo tipo de lugar. Deixa claro que ser eclético, não quer dizer que não seja exigênte, “a música deve ter conteúdo e bom rítimo, o livro deve me conquistar logo nas primeiras páginas e os lugares devem me oferecer belas paisagens.

Ama a natureza, o mar em especial. Faz questão de deixar marcado em seus textos todo esse amor, como poderá ser comprovado a seguir por uma de suas poesias:



Eu quero um pedaço de praia
com um pouco de água do mar,dois coqueiros,
e uma rede de palha, para o meu corpo descansar.


Eu quero um dia quente para poder nadar,
e uma noite mais quente ainda para caminhar,
lá onde a água beija a terra, onde a terra encontra o mar.

Uma água de coco da fruta colhida no pé,
e uma sandália confortável para
dançar com minha mulher.

Quero um telhado firme para aguentar as chuvas de verão
e muitas janelas pro cheiro do mato molhado invadir
meu coração.


Um cigarro de palha no beiço e um copo de café do lado.
Um grilo cantando em meus ouvidos
e as ondas do mar em seu som cadenciado.

Degustação

Capítulo 1

          Era o ano de 1506 do nosso senhor Jesus Cristo, Dom Manoel I, O Venturoso, reinava Portugal e empreendia em expedições para aumentar seus domínios. Naquele ano, nasceu Rodolfo Almeida de Alcântara Vaz e Braga, filho de Joaquina Almeida Alcântara Vaz e Braga e José de Alcântara Vaz e Braga, fidalgos de primeira ordem, portugueses de descendência germânica, possuíam grande fortuna mesmo não ostentando um título de nobreza.

Rodolfo Almeida de Alcântara Vaz e Braga foi educado nas melhores escolas, desde cedo, desenvolveu gosto pela área naval. Tinha espírito livre, não se apegando a nada, gostava muito de estudar, sendo sempre um ótimo aluno. Ia a Igreja, obrigado por sua mãe, com o tempo, aprendeu que deveria frequentá-la para ser mais respeitado pela sociedade, mas como não se importava com a opinião dos demais, ia com o principal intuito de observar os decotes das moçoilas, não prestando a mínima atenção nas palavras que o padre falava em latim. Já aos quinze anos, Rodolfo tomou gosto pelas noitadas, e sabia dividir muito bem seu tempo, entre seus estudos e as prostitutas dos bordeis que frequentava. Ele se dizia um amante das mulheres, mas o fato, é que era obsessivo quando o assunto era sexo, sendo mais educado pela vida boêmia e seus frequentadores, do que pelos pais e pela igreja.

Quando completara 19 anos, formara-se com honras, empreendendo grande parte de seu tempo, a aprender tudo que lhe era possível sobre navegação. Seus pais andavam preocupados, pois queriam que ele se casasse, mas ele refutava essa ideia, gostava de ser um homem livre. Vez ou outra conseguia obter favores sexuais de suas pretendentes, nem mesmo suas primas escapavam de seu apetite. Frequentemente sofria com doenças que adquiria nos bordéis, sempre ia ao mesmo médico, um velho e bondoso senhor, que lhe aconselhava:

- O senhor deve cuidar melhor de suas vergonhas, senhor Rodolfo, ou acabará por perdê-las.

Quando completou 22 anos, encantou-se com uma linda menina de dezenove anos, chamada Maria, também fidalga. Acostumado a aprontar das suas, foi até a casa de seus pais, para pedir-lhes permissão para cortejar sua filha. Aquela família via grandes vantagens financeiras naquela comunhão que se anunciava, a família de Rodolfo, se agradava com a ideia, pois já haviam perdido suas esperanças. Maria, de semblante suave, lindos olhos amendoados e cabelos castanhos, apaixonou-se por Rodolfo, e nos poucos instantes que conseguiam ficar a sós, ela dizia a ele que faria tudo que ele lhe pedisse, pois já o amava. Certo dia, a família Vaz e Braga, resolveu fazer um jantar, convidou a família da moça para a festividade, o real intuito de tudo, era combinar com eles o valor do dote que a família de Maria deveria pagar, e marcar a data do casamento. Nessa mesma noite, Rodolfo e Maria conseguiram escapar dos olhos de seus pais, que estavam com suas atenções voltadas às negociações, e se entregaram ao prazer, satisfazendo seus corpos. Como sempre, após isso, Rodolfo perdia o interesse pela mulher, pois não lhe agradava a ideia do casamento, mas gostava de Maria, o suficiente para entender que não conseguiria escapar daquela obrigação. Como já havia feito planos para seu futuro, não impusera muita resistência, tentando aproveitar da situação ao máximo. Foram muitas as vezes, que ele e sua noiva, antes do casamento, entregaram-se aos seus desejos, ao ponto de terem que apressar a cerimônia, para que sua barriga não aparecesse.

Após dois anos de casados, e com dois filhos, Rodolfo já era um excelente navegador, fazia pequenas expedições e se via pronto para navegar até terras mais longínquas. Ele não era um bom marido, continuava aventurando-se com as prostitutas, foram muitas as vezes que, sua irresponsabilidade o fizera transmitir doenças dolorosas a sua esposa, que sofria calada. Manteve-se frio, calculista, caindo cada vez mais nas graças dos homens, que investiam na descoberta de novas terras para Portugal.

Em 1530, com 24 anos de idade, Rodolfo fora incluído no grupo de homens que iriam ao Brasil, para fazer a real colonização daquelas terras. Portugal passava por uma crise econômica, assim como sua soberania sobre as terras brasileiras, estava sendo ameaçada pelos franceses. Quando a data de sua partida fora confirmada, na noite anterior, enquanto todos dormiam, juntou uma trouxa com algumas roupas e dirigiu-se ao cais, não se despediu de sua mulher, filhos ou pais. Não deu satisfações a ninguém, para seus familiares, ele desaparecera misteriosamente.

Naquele mesmo ano, sob o comando de Martim Afonso de Sousa, do qual se tornou homem de confiança, desembarcou em terras brasileiras para nunca mais voltar, nem ao menos buscava notícias sobre sua família em Portugal. Essa expedição, também foi a responsável por trazer as primeiras mudas de cana de açúcar para o Brasil, Rodolfo ajudou diretamente na fundação da vila de São Vicente, em 1532. Foi também uma peça fundamental na implantação do primeiro moinho no Brasil, o Moinho do Governador.

Já instalado, levava uma boa vida, cheia de regalos, comprava os escravos indígenas, que eram vendidos pelos próprios índios e os revendia. Em sua casa só admitia escravas, as mais belas que conseguia encontrar, ele possuía um verdadeiro harém. Seu comportamento irritava as moçoilas portuguesas, que buscavam nele, um bom casamento, mas ele sempre dizia a seus amigos, que preferia as índias, pois não se importavam em andar nuas, e ainda rendiam-lhe bom dinheiro, com os filhos que ele fazia nelas e depois vendia como escravos. Em 1540, foi um grande incitador da escravidão em massa dos povos indígenas, tornando as relações entre nativos e colonos, muito mais difícil do que já era. Morreu aos 40 anos, em 1548, tomado por uma estranha doença, não houve quem chorasse em seu enterro, aqueles que diziam que eram seus amigos, providenciaram uma boa cerimônia fúnebre, depois tomaram para si tudo o que tinha, apagando totalmente qualquer vestígio de sua história.

Seu espírito, não conseguindo livrar-se do mundo material, muito sofreu ao ver que nada havia lhe restado, vagou sem rumo por anos, sentia fome e sede, mas não conseguia saciá-las. Sentia frio, mas estava nu, e mesmo tentando roubar algumas roupas dos varais, não conseguia. Sentia grandes necessidades sexuais, mas não podia saciá-las. Ele se embrenhou pela mata, encontrando depois de um bom tempo de caminhada, uma aldeia indígena, estavam em meio a um ritual, mas o que lhe atraiu foi a fogueira, pela primeira vez, depois de muito tempo, conseguia sentir o calor do fogo. Aproximou-se dela, ele não sabia rezar, pouco conhecia sobre Deus, mas desejava intimamente que aquela fogueira não se apagasse, pois estava cansado e com frio. Olhou para os índios, eles dançavam, bebiam uma espécie de chá e fumavam algumas ervas, ele tinha a nítida impressão que alguns dos nativos o viam, principalmente quando chegavam perto da fogueira onde ele estava, e cuspiam sobre ele o líquido que traziam na boca. Primeiro ele se incomodou, achou nojento, não aceitava que um índio fizesse aquilo com ele, porém, sabia que nada poderia fazer para impedi-los. Conforme os índios faziam aquilo, alguma coisa daquele líquido ficava sobre ele, fazendo-o se sentir mais leve e sonolento, até que em determinado momento, ouviu uma voz:

- Veja homem, o que fazem para ti.

Ele olhou para trás, viu a figura de um padre jesuíta e perguntou:

- E o senhor, quem é?

- Me chamo Pedro, e tu és Rodolfo, pois não?

- Como sabe meu nome?

- Sei, porque venho te acompanhando há algum tempo.

- Como, se nunca te vi?

- Tu não me viste, pois teus olhos estavam cegos. Não podias me enxergar, mas fui eu quem te trouxe cá nessa aldeia, não percebes o que fazem para ti?

- Não, o que fazem?

- Esses homens, tem grande conhecimento das coisas do espírito, esse é um ritual de purificação da aldeia, eles afastam os maus espíritos através de suas magias.

- Mas como pode ser isso, eu não sou um mau espírito, assim como não fui afastado, vim por conta do fogo?

- O trabalho que fazem, serve de fato para afastar os maus espíritos, pois os ajudam a encontrar o caminho, aqueles que não querem são retirados, mas aqueles que estão prontos são tratados através das ervas. E você foi um mau espírito, ficou vagando nessa terra por muito tempo, cego, nu como estás agora, não percebes?

Ele se envergonhou com sua nudez, afinal, fazia muito tempo que não era visto por ninguém.

- E o senhor, me deixará nu, ou terá uma roupa para me emprestar?

O Jesuíta lhe entregou uma veste igual a dele, Rodolfo a vestiu rapidamente, sentindo grande alívio.

- Por que eles pararam de dançar e fazer aqueles barulhos? – Perguntou Rodolfo, referindo-se aos índios.

Naquele instante, todos estavam sentados em círculo, um velho fumando um cachimbo, olhava fixamente para o lado em que estavam, falando algo em seu idioma. Pedro, o jesuíta, explicou-lhe:

- Você vê aquele velho índio? Ele pode nos ver também, ele está contando aos que estão sentados, que estamos conversando, que chegara a hora de você se decidir.

- Decidir o que?

- Se desejas continuar como está, ou se virá comigo a fim de redimir teus pecados.

- Mas que pecados eu cometi? Sempre fui muito católico, ia a todas as missas, ajudava sempre a igreja.

- Se não os tivesse, meu filho, jamais que nosso paizinho do céu haveria de permitir, que você vagasse sem rumo por oitenta anos, sua mente lhe cobra.

- Oitenta anos! Em que ano estamos?

- Aqui nessa terra, em 1628.

- É impossível!

- Posso te explicar tudo, mas antes deves decidir, aqui nessa aldeia não poderá ficar, ou virá comigo, ou será levado pelos espíritos da floresta, como são chamados pelos indígenas.

O silêncio da tribo continuava, indeciso, Rodolfo se calou. O velho Pajé saiu do meio do círculo e foi em direção a eles, colocou mais um pouco daquele líquido em sua boca e novamente o cuspiu sobre Rodolfo. Dessa vez ele teve seus sentidos apurados, sua visão passou a enxergar os ditos, espíritos da floresta, ele ouvia muitas vozes se lamentando e o xingando, ele indagou desesperado:

- O que é isso?

- Agora percebes, as vozes que ouve, são das pessoas que você prejudicou, mortas ou vivas, elas ainda o perseguem em seus pensamentos, quer continuar assim?

- Não, não quero, por favor me ajude!

- Então você deseja vir comigo?

- Sim, por tudo que é mais sagrado, me ajude!

Rodolfo abraçou as pernas de Pedro, o velho pajé da aldeia, contou aos demais que tudo havia dado certo, eles começaram emitir seus sons típicos e a dançar. Rodolfo parou de ouvir as vozes.

- O que aconteceu? – Ele perguntou.

- Eles estão felizes por você.

- Mas eu não fiz nada.

- Para eles, o importante é que você tomou a decisão certa, que a partir de hoje, partirá para uma nova jornada, e que não vagará mais sem rumo pela terra.

Rodolfo entrou em profundo e compulsivo choro, lembrou-se da esposa e dos filhos que havia abandonado, das orgias que havia participado com as prostitutas em Portugal, assim como das que promovia com suas escravas indígenas. Arrependeu-se de tudo, não via razão naquilo que havia feito, não via mais o dinheiro, como motivo para promover tanta violência contra aqueles que, naquele momento, estavam comemorando por ele estar bem. Ele sentiu-se vazio, todos seus conceitos de vida, todas suas certezas, foram por terra, não sabia mais quem ele era, estava perdendo-se em seus pensamentos, mas Pedro o resgatou:

- Você deseja corrigir esses erros?

- Eu posso?

- Claro que sim, nosso paizinho do céu é perfeito, jamais permitiria o erro, se não houvesse a possibilidade da correção.

- Mas pelo pouco que me lembro dos sermões dos padres, meu lugar é no inferno.

- Meu filho, nosso paizinho do céu, jamais criaria algo como o que você me disse, um lugar onde não há perdão, onde não há segunda chance. Você já teve seu inferno, ou acredita que não foi suficiente, passar oitenta anos vagando desorientado, passando frio por estar nu, sedento por água e não conseguindo bebê-la, ávido por comida e não conseguindo ingeri-la?

Rodolfo se calou, o padre Jesuíta prosseguiu:

- Não temos tempo a perder, você deverá voltar imediatamente. Reparar seus erros passados será uma tarefa árdua, teremos que ir por partes, mas não se desanime ou perca suas esperanças, você tem em si, muita força, seu espírito é livre, você conseguirá. Inicialmente você voltará a Portugal, nascerá filho de sua bisneta, ganhará o mesmo sobrenome, será um fidalgo novamente.

- Não mereço Pedro, não desejo mais cair nas armadilhas do dinheiro.

- As armadilhas não foram armadas pelo dinheiro meu filho, elas foram armadas por ti. Lá, você terá a missão de ajudar as mulheres que cometeram, junto de ti, abusos sexuais, assim como terá a chance de corrigir teus erros, com aquela que foi tua esposa e com teus filhos. Sem o dinheiro, terás muita dificuldade, mas fique sabendo, que também terá seu momento de pobreza, mas concentre-se no agora, no que estou te pedindo. Não se esqueça, sempre estarei ao teu lado.


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